De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso, é um livro do Eduardo Galeano.
Galeano não tem papas na língua.
Diz, não manda dizer.
Na época da universidade que eu o conheci.
Li um artigo em uma revista, depois encontrei na feirinha do Básico o Livro dos Abraços, e virei fã.
Eu leio, releio, me emociono, choro, rio... mix de emoções.
(pensando bem, acho que Galeano não gostaria da palavrinha mix!...)
Um dia encontrei esse, o 'De pernas pro ar'.
Vez em quando, procuro na estante, folheio, bisbilhoto, leio algumas páginas, tomo injeção de indignação (como se eu precisasse... - a pessoa já nasceu indignada), fecho, guardo e sigo a vida.
Hoje, li este pedacinho de tapinha de luva, diz assim:
Vista do crepúsculo, no final do século
Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anônimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas, só públicos.
Não há realidades, só publicidades.
Não há visões, só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: "Parece de plástico".
- Credo! Que fel...
Isso é estranho... em outro momento estaria aplaudindo...
E quando eu abro o guarda-roupas e me chateia ver todas as minhas roupas em tons preto, cinza, marrom, areia ou branco...
Penso que algo acontece no meu coração, e nem precisei cruzar a avenida São João...
Será que estou perdendo a capacidade de me indignar?
Será que estou me tornando um ser mais brando?
Creio que desta vez, foi minha cabeça que foi para o ar...

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