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Quando adolescente, tive diários. Eu escrevia nas últimas folhas dos cadernos, lia muito, imaginava histórias. Quando descobri que era possível fazer isso virtualmente, não pensei duas vezes! E se passaram muitos anos. Oito anos que estou sem escrever aqui. Estou retomando as linhas. E é um presente reler minhas linhas, minhas emoções, alegrias, frustrações, sonhos!

terça-feira, 24 de abril de 2012

e...?

dia desses
 um barulho descomunal chegou dentro de casa
um ranger, uma coisa tenebrosa
um som que não se tem lembrança,
que você não associa com nada
cada vez aumentava mais
e logo se sabia, estava ali,
na frente de casa

corri para a janela
e pasma, quase não acreditei
um daqueles carros de bois tão singelos e bucólicos que vez ou outra eu admiro
havia se transformado num objeto de tortura
um boi puxava um carro carregado de toras
com as rodas de madeira arriadas
na areia ainda molhada pela chuva
na parte mais íngreme da estrada ele parou
e tomou chicotada no lombo
corri para a frente de casa, assim como a minha vizinha
e chocadas
vimos um senhor de muita idade e três jovens acompanhando o carro
sumiram na estrada de areia e entraram no asfalto
fui atrás, de carro
segui o rastro branco das rodas que riscavam o chão
e logo mais a frente vi que entraram numa estradinha de areia que vai dar num antigo moinho de farinha

como é difícil lidar com essas situações
aquela carroça caíndo aos pedaços
torturando o animal que fazia um esforço absurdo para, literalmente,
arrastar o que afundava na areia
argumentar com pessoas que vivem como que no século passado
que resistem quando se fala em respeito aos animais
que acha que a farra do boi é cultura
que os "de fora" se metem na vida deles
quase chover no molhado
...
e, na semana passada
voltando de viagem
avistei uma carretinha apinhada de papéis, papelões, plásticos
as rodas de bicicleta adaptadas estavam arriadas, como àquelas do carro de boi
não dava para ver nada por conta da montanha de papel
reduzi a velocidade, pois era impossível ultrapassar
mas já estava indignada com a lembrança do boi que passou na rua de casa,
e com a possibilidade de ver um cavalo maltratado puxando aquilo tudo

quando ultrapasso
é um homem que se arrasta
empurrando uma bicicleta
que já não tem mais condições de pedalar

a minha indignação ficou suspensa
eu e minha colega conversávamos animadamente sobre o sucesso do trabalho
e tudo ficou tão pequeno naquele instante
tão sem cor
tão medíocre
e só o silêncio ocupou o carro



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