depois de quase 36 horas de Fortaleza
retorno para casa
na bagagem levo dois vidrinhos de geléia
um de cupuaçu e outro de pimenta
mais oito trufas de frutas - ditas - exóticas
para dividir com os meus
na bagagem da memória
levo a impressão das pessoas que me inquieta:
uma profunda religiosidade e zelo familiar
agorinha, quando estava na fila que antecede o embarque
presenciei uma senhora e duas moças que abraçavam um rapaz
todos emocionados, com lágrimas nos olhos
quando ele passou pela porta do embarque
ainda ouvi a mãe dizendo
- que Deus te abençoe meu filho, e reze para Nossa Senhora na hora
(pausa)
na hora que subir
o rapaz se voltou e acenou mais uma vez,
os olhos repletos
essa cena calou fundo em mim
seria até engraçada pela 'hora de subir'
mas era impossível fazer graça
era uma coisa sentida, de emoção
o rapaz na minha frente, dentro de um terno e gravata
naquele calor do CE
indo sabe-se lá para aonde
secava as lágrimas nas mãos, quase infantil
eu quase chorei junto
recordei de outro rapaz,
o que me buscava no hotel e me trazia de volta nestes dias de trabalho
durante o trajeto contava muitas histórias
e numa delas disse:
- sou louco no meu pai, na minha mãe, nos meus irmãos!
nunca ouvi ninguém declarar amor apaixonado a sua família com tanta ênfase
e Deus e Nossa Senhora perpassam os diálogos com muita naturalidade
além de um profundo respeito quando mencionam os pais
já na sala de embarque
estou digitando este texto
e um desnorteado aos berros no telefone brada:
- diz prá ela que ela não vai fazer isso, que ela é incompetente prá fazer isso...
e mais um monte de impropérios impublicáveis...
um grosso, demente, que por mais razão que tivesse, nada justificaria tanta falta de respeito
cena final:
eu absorta nas cenas amorosas que presenciei
e o incauto indivíduo que aos berros me arrancou delas
acabou minha inspiração

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